CAPELANIA ESPECIALIZADA EM DESASTRES: SERVIR COM FÉ, PREPARO, HUMANIDADE E RESPONSABILIDADE
Uma atuação humanitária fundamentada no acolhimento, na ética e no respeito à dignidade humana
Em situações de emergência e desastres, as pessoas afetadas podem enfrentar perdas materiais, separações familiares, medo, insegurança, sofrimento emocional e profundas mudanças em suas vidas.
Nesse contexto, a Capelania Especializada em Desastres exerce uma importante função de acolhimento, escuta, apoio espiritual e assistência humanitária, sempre respeitando a dignidade, a autonomia, as crenças e os direitos de cada pessoa.
A atuação do capelão deve ocorrer de maneira organizada, responsável e integrada às estruturas de Proteção e Defesa Civil, observando protocolos operacionais, limites de competência, princípios éticos e orientações das autoridades responsáveis.
A assistência espiritual deve ser ofertada, nunca imposta, respeitando pessoas de diferentes religiões, crenças, convicções filosóficas ou que não possuam qualquer religião.
A capacitação é fundamental para que o voluntário ou capelão esteja preparado para atuar com segurança, equilíbrio, humildade, responsabilidade e respeito às demais equipes envolvidas na resposta a desastres.
Nesse contexto, apresentamos a transcrição integral da fala da Tenente-Coronel Bombeiro Militar Adriana Bianchi, apresentada no Módulo II do Curso de Capelania Operacional em Desastres.
TRANSCRIÇÃO INTEGRAL — MÓDULO II DO CURSO DE CAPELANIA OPERACIONAL EM DESASTRES
Bom dia a todos. Sejam muito bem-vindos ao Módulo II do Curso de Capelania Operacional em Desastres.
Antes de começarmos propriamente o nosso conteúdo, eu gostaria de me apresentar um pouco melhor a vocês. Não apenas pelos cargos ou pelos títulos, mas também pela trajetória que me trouxe até aqui — porque acredito que a forma como ensinamos e como servimos também é construída a partir daquilo que vivemos.
Eu sou a Tenente-Coronel Bombeiro Militar Adriana Bianchi, assessora da Superintendência Operacional da Secretaria de Estado de Defesa Civil do Rio de Janeiro.
Tenho 25 anos de Corpo de Bombeiros e 25 anos de atuação nessa estrutura institucional que hoje integra a SEDEC/CBMERJ. Desde 2015 estou diretamente inserida no Sistema de Proteção e Defesa Civil, trabalhando com aquilo que, ao longo do tempo, deixou de ser apenas uma atividade profissional para se tornar uma parte muito importante da minha própria história.
Sou instrutora da Escola de Defesa Civil, mestre em Segurança e Defesa Civil e especialista na área de captação de recursos. Ao longo desses anos, tive a oportunidade de trabalhar com formação, planejamento, gestão de riscos, preparação, resposta a desastres e, principalmente, com pessoas.
Mas existe uma outra parte da minha vida que também explica muito o motivo de eu estar aqui falando com vocês.
Eu sou catequista desde os 14 anos de idade. Hoje tenho 48. Portanto, são 34 anos de caminhada na catequese.
Isso significa que, praticamente durante toda a minha vida adulta, duas dimensões caminharam comigo: de um lado, o serviço público, o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil; de outro, a fé, a formação cristã e o cuidado com pessoas.
E talvez seja justamente no encontro dessas duas histórias que eu compreenda a capelania.
Sou cristã católica, sou catequista, sou capelã, mas também sou esposa, mãe e integrante de uma família que é muito importante para mim.
Sou casada com o Subtenente BM Douglas Xavier, também bombeiro militar. Sou mãe da Ana Caroline e da Ana Beatriz, e sou também mãe de coração do Cadu e da Júlia.
Faço questão de dizer isso porque, quando falamos sobre desastre, vulnerabilidade, perda, família, medo, esperança e reconstrução, nós não estamos falando apenas de conceitos técnicos.
Estamos falando de coisas que pertencem à vida.
E antes de sermos militares, profissionais, professores, capelães ou voluntários, nós somos pessoas.
Nós amamos pessoas.
Nós temos família.
Nós temos medos.
Nós conhecemos perdas.
Nós sabemos o que significa precisar de alguém.
E é justamente essa humanidade que precisa permanecer conosco quando vestimos um colete, colocamos uma identificação de capelão e entramos em uma operação.
Mas ela precisa caminhar junto com outra coisa: preparo.
Porque este módulo parte de uma pergunta muito importante:
O que transforma a capelania em desastres em uma atividade profissional e não apenas em uma manifestação espontânea de boa vontade?
Essa é uma das perguntas centrais que orientam todo o nosso Módulo II.
E eu já gostaria de deixar uma primeira resposta para vocês:
boa vontade é indispensável. Mas, em um desastre, boa vontade sozinha não basta.
É preciso conhecimento.
É preciso preparação.
É preciso disciplina.
É preciso ética.
É preciso compreender o Sistema de Comando de Incidentes.
É preciso saber trabalhar em equipe.
E, sobretudo, é preciso conhecer os próprios limites.
Talvez uma das coisas mais importantes que eu gostaria que vocês levassem destas aulas seja esta:
O limite não diminui o capelão. O limite qualifica o seu cuidado.
Na Defesa Civil nós aprendemos que ninguém atua sozinho.
Existe uma estrutura. Existe comando. Existem responsabilidades diferentes. Existem profissionais com competências específicas. E existe uma razão para que cada pessoa saiba exatamente onde começa e onde termina a sua atribuição.
Com a capelania não pode ser diferente.
Ao longo da minha trajetória profissional, e especialmente nas experiências de resposta a grandes ocorrências, eu aprendi algo que nenhum livro consegue ensinar completamente.
Quando chegamos a um desastre, encontramos pessoas em um momento em que algumas das referências mais importantes da vida delas podem ter sido abruptamente rompidas.
Às vezes aquela pessoa perdeu a casa.
Às vezes perdeu alguém que ama.
Às vezes perdeu documentos, objetos, memórias construídas durante uma vida inteira.
Às vezes perdeu aquilo que lhe dava segurança.
E, em algumas situações, naquele primeiro momento, ela perdeu até mesmo a capacidade de compreender o que acabou de acontecer.
É nesse espaço que o capelão chega.
E por isso nós precisamos compreender a enorme responsabilidade existente nesse encontro.
A pessoa diante de nós não é objeto da nossa ajuda.
Ela continua sendo uma pessoa com história, dignidade, autonomia, cultura, crenças, valores, escolhas e direitos.
E aqui existe uma experiência que a vida também foi me ensinando.
Diante da dor do outro, nossa primeira vontade normalmente é fazer alguma coisa.
Nós queremos falar.
Queremos abraçar.
Queremos consolar.
Quem tem fé talvez queira imediatamente rezar, oferecer uma palavra, trazer esperança.
Esse impulso é legítimo.
Mas maturidade também significa compreender que nem sempre cuidar é fazer mais.
Às vezes cuidar é saber permanecer.
É escutar.
É respeitar o silêncio.
É perceber que aquela pessoa ainda não quer falar.
É entender que ela talvez professe uma fé diferente da nossa.
Ou talvez não tenha religião alguma.
É perceber que determinada necessidade ultrapassa nossa competência e precisa ser encaminhada para um psicólogo, um assistente social, um profissional de saúde ou outro integrante da operação.
Às vezes, cuidar é simplesmente estar presente.
Por isso, este módulo não pretende diminuir a dimensão espiritual da capelania quando introduz legislação, Sistema de Comando de Incidentes, voluntariado, zonas operacionais, padrões humanitários, protocolos e regras de acionamento.
Muito pelo contrário.
Nós queremos dar estrutura à vocação.
Queremos transformar disponibilidade em capacidade.
Queremos transformar intenção em atuação responsável.
Queremos preparar vocês para que, quando alguém realmente precisar da presença de um capelão, vocês possam chegar não apenas com o coração disponível, mas também sabendo:
onde estar,
como agir,
a quem se apresentar,
a quem se reportar,
o que observar,
o que podem fazer
e, igualmente importante, o que não devem fazer.
É exatamente por isso que nosso módulo começa pelos Fundamentos de Proteção e Defesa Civil, passa pela doutrina operacional e pelo Sistema de Comando de Incidentes, trabalha voluntariado, referenciais humanitários, populações vulneráveis, assistência religiosa e termina na organização da Rede Estadual de Capelania Operacional em Desastres, sua legislação e seu protocolo de atuação.
E vocês vão perceber uma mudança de paradigma muito importante:
o capelão não chega ao desastre por conta própria para fazer aquilo que acredita ser necessário.
O capelão integra uma resposta organizada.
E isso exige uma palavra que eu considero fundamental para quem deseja trabalhar com capelania:
humildade.
Humildade para trabalhar sob comando.
Humildade para aprender com outras profissões.
Humildade para compreender que o psicólogo possui uma competência que não é a nossa.
Que o assistente social tem outra.
Que o médico tem outra.
Que as equipes de busca e salvamento possuem outra.
E que todas essas competências podem trabalhar juntas em torno de uma mesma pessoa.
E também humildade para reconhecer que a pessoa que está diante de nós pode pensar e acreditar de uma maneira completamente diferente da nossa.
Esse talvez seja um dos maiores testes da maturidade espiritual de um capelão.
Eu sou cristã católica. A minha fé é parte profunda de quem eu sou.
Mas uma fé madura não precisa se impor para existir.
Ela sabe servir.
E existe uma imagem de Jesus que sempre me toca muito quando penso em capelania: Jesus que se aproxima das pessoas, que olha, que escuta, que pergunta, que acolhe.
E existe uma frase que, para mim, resume profundamente aquilo que um capelão deve compreender sobre sua missão:
“Não vim para ser servido, mas para servir.”
Marcos 10,45.
Guardem essa palavra:
servir.
Não conduzir a pessoa para onde eu quero.
Não utilizar a vulnerabilidade dela para transmitir aquilo em que eu acredito.
Não ocupar o lugar de outro profissional.
Não querer ser protagonista de uma tragédia que pertence à história de outra pessoa.
Servir.
E servir em um desastre pode significar oferecer presença sem invadir.
Escutar sem interrogar.
Acolher sem julgar.
Orientar sem dominar.
Conectar sem abandonar.
E respeitar sem fazer distinção.
Por isso vocês também vão ouvir muito neste módulo uma ideia essencial:
a assistência espiritual é ofertada, nunca imposta.
Então eu gostaria de fazer um convite a vocês.
Não vivam estas próximas aulas apenas como alunos que precisam aprender um conteúdo para realizar uma avaliação.
Deixem-se formar.
Perguntem.
Participem.
Tragam suas experiências.
Tragam suas dúvidas.
Tragam aquelas situações em que vocês talvez ainda não saibam qual seria a conduta adequada.
Porque é muito melhor discutirmos nossos limites aqui, em ambiente de formação, do que descobri-los diante de uma família que acabou de perder tudo.
E eu também estarei aqui com vocês não apenas como instrutora.
Vou trazer aquilo que estudei.
Aquilo que a legislação estabelece.
Aquilo que a Defesa Civil exige.
Mas também aquilo que esses 25 anos de Corpo de Bombeiros, a minha experiência na Defesa Civil, a docência, a capelania, a catequese e a própria vida me ensinaram.
E talvez uma das maiores lições seja esta:
ninguém precisa ser extraordinário para cuidar de alguém em sofrimento. Mas precisa estar preparado para fazê-lo com responsabilidade.
É isso que nós vamos construir juntos neste Módulo II.
Técnica suficiente para não improvisar.
Disciplina suficiente para respeitar o sistema.
Humildade suficiente para reconhecer limites.
Humanidade suficiente para enxergar a pessoa.
E fé suficiente para compreender que servir também significa saber quando falar, quando silenciar, quando permanecer e quando encaminhar.
Se, ao final deste módulo, vocês compreenderem que ser capelão operacional não significa ser o “herói” que chega onde ninguém chegou, mas ser um servidor preparado, ético, integrado e confiável, nós teremos alcançado uma parte muito importante do nosso objetivo.
Então, sejam muito bem-vindos.
Que este seja um tempo de aprendizado, reflexão e amadurecimento.
E, sobretudo, um tempo de preparação para servir.
Porque, quando o desastre chegar, talvez nós não possamos devolver àquela pessoa tudo aquilo que ela perdeu.
Mas podemos contribuir para que, no momento da sua maior vulnerabilidade, ela encontre pessoas preparadas para tratá-la com segurança, respeito, dignidade, humanidade e esperança.
É para isso que estamos aqui.
Sejam muito bem-vindos ao Módulo II.
E vamos começar.
MENSAGEM INSTITUCIONAL
O compromisso da UNIVOB/MECSMDC /AMACOPA com o acolhimento humanitário
A UNIVOB/MECSMDC /AMACOPA reconhece que a atuação em situações de emergência e desastre exige preparo, responsabilidade, integração institucional e respeito absoluto à dignidade humana.
A Capelania Especializada em Desastres deve ser compreendida como uma atividade de apoio, acolhimento e assistência espiritual, desenvolvida de maneira ética, humanizada e complementar às demais ações de Proteção e Defesa Civil.
O capelão não substitui profissionais da saúde, psicólogos, assistentes sociais, médicos, equipes de busca e salvamento ou outros agentes especializados. Sua atuação deve respeitar os limites de sua formação e seguir as orientações da coordenação responsável pela operação.
O cuidado espiritual deve ser oferecido com sensibilidade, sem constrangimento, discriminação ou imposição religiosa. Cada pessoa deve ser respeitada em sua identidade, cultura, fé, crenças, valores e também em seu direito de não professar uma religião.
A verdadeira missão do capelão é servir com humildade, escutar com atenção, acolher com respeito e contribuir para que a pessoa afetada encontre segurança, dignidade, esperança e apoio durante um momento de vulnerabilidade.
A capacitação contínua, o conhecimento dos protocolos, a compreensão do Sistema de Comando de Incidentes e a integração com as equipes operacionais são elementos essenciais para uma atuação segura e responsável.
A UNIVOB/MECSMDC /AMACOPA reafirma seu compromisso com a formação de voluntários, capelães, agentes humanitários e colaboradores preparados para atuar em ações sociais, humanitárias e de Proteção e Defesa Civil, sempre observando a legislação aplicável, os princípios éticos e os limites institucionais.
NOSSO COMPROMISSO
Servir ao próximo é mais do que uma atitude de solidariedade. É um compromisso com a vida, com a dignidade humana, com a responsabilidade e com o respeito ao sofrimento de cada pessoa.
Que todos os voluntários e capelães compreendam que:
A boa vontade precisa estar acompanhada de preparo;
A assistência espiritual deve ser ofertada, nunca imposta;
O respeito deve prevalecer sobre qualquer diferença;
O trabalho integrado fortalece a resposta humanitária;
O conhecimento dos próprios limites protege o voluntário e a pessoa atendida;
A humildade, a ética e a humanidade devem orientar todas as ações.
Defesa Civil Somos Todos Nós!
Servir ao próximo é um ato de amor, cidadania e compromisso com a vida.
AGRADECIMENTO INSTITUCIONAL
A UNIVOB/MECSMDC /AMACOPA expressa seu sincero agradecimento à ESCOLA DE DEFESA CIVIL – ESDEC/SEDEC-RJ, a primeira Escola de Defesa Civil do Brasil, pelo importante trabalho desenvolvido na formação, capacitação e qualificação de profissionais, voluntários e agentes comprometidos com a prevenção, a proteção e a resposta humanitária em situações de emergência e desastres.
Registramos nosso reconhecimento a todos os profissionais, instrutores e colaboradores que dedicam seus conhecimentos ao fortalecimento da cultura de prevenção e à preparação da sociedade para a proteção da vida.
Gratidão por ensinar, preparar e fortalecer a Defesa Civil.
IDENTIFICAÇÃO INSTITUCIONAL
UNIVOB/MECSMDC /AMACOPA
União Nacional e Internacional de Voluntariados do Brasil
Ministerium Espiritual CWS Salvar de Missionário de Defesa Civil
Associação de Moradores e Amigos de Copacabana e Adjacências
Capelania Social, Espiritual e de Proteção e Defesa Civil
🌐 www.atividadehumanitariadefesacivil.com
Acolher, proteger, servir e respeitar.
Defesa Civil Somos Todos Nós!

